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Cinco votos e um palco vazio: o “Mick Jagger do Sertão” dançou para ninguém

Cinco votos e um palco vazio: o “Mick Jagger do Sertão” dançou para ninguém

Em Monte Horebe, Marcos Heron trocou de candidato entre os turnos e entregou 1,2% dos votos que apareceram na cidade. Lula ficou com 98,8% e fechou em 82,13%. O padrinho que se apresenta como valentia no sertão não entregou nem o próprio quintal.

Monte Horebe, Sertão da Paraíba. 3.414 votos válidos. É nessa escala que se mede prestígio político não no palco, não no apelido, não no vídeo.

Marcos Heron, ex-prefeito do município, hoje administrado por Milena Nogueira fez o que se espera de um chefe político tradicional: escolheu candidato no primeiro turno, trocou no segundo e subiu ao palco para transferir votos. Augusto Cury levou 93 votos, 2,95%. Exatamente o percentual que o escritor teve na Paraíba inteira. Não havia ali um eleitorado de Heron aguardando ordens. Havia o voto genérico de um candidato sem lastro e o ex-prefeito confundiu os dois.

No segundo turno, ele apontou para Flávio Bolsonaro. Flávio saiu de 605 para 610.

Cinco votos.

Cinco, num município onde 411 votos novos entraram em jogo entre um turno e outro. O candidato apadrinhado ficou com 1,2% do que estava disponível. Lula ficou com 98,8%. Isso não é transferência de voto: é transferência de nada, com cerimônia e discurso.

O detalhe mais cruel não é a soma, é a proporção. Flávio cresceu em número e encolheu em participação de 19,19% para 17,87%. Cinco votos a mais, 1,32 ponto a menos. O padrinho não apenas falhou em crescer o afilhado: ajudou a apequená-lo na comparação. Apoio que encolhe o apoiado não é capital político, é passivo.

Do outro lado, Lula saltou de 2.398 para 2.804 votos, de 76,08% para 82,13%, e abriu 2.194 votos de frente 3,6 vezes o total do adversário. Em Monte Horebe, o segundo turno não foi disputa. Foi ratificação.

E é aqui que o episódio deixa de ser anedota e vira diagnóstico. O bolsonarismo se apresenta no sertão como valentia. É o discurso do enfrentamento, o tom de guerra, a pose de quem resiste de pé enquanto o resto se ajoelha. Só que valentia sem voto é apenas volume. O sertão que fala grosso no palco votou fino na urna: 82,13% em Lula, contra 32,5% do campo bolsonarista na média do estado. Monte Horebe não foi lulista apesar do padrinho foi mais lulista que a Paraíba inteira, com o padrinho em cima do palco, de braço erguido, apontando para o lado errado.

Durante décadas, o sertão foi lido pelo prisma do curral eleitoral: o chefe local indica, o eleitor obedece, o voto desce como água. O que a contagem de Monte Horebe mostra é o gado pulando a cerca. Não por rebeldia abstrata, mas por conta fechada: 2.194 votos separaram o candidato do padrinho do candidato do povo. Nenhuma liderança local sobrevive a uma diferença desse tamanho sem que alguém, no balcão da feira, faça a pergunta que não quer calar “e o apoio dele serviu para quê?”.

O fracasso de Heron tem três camadas, e nenhuma delas se resolve com ironia. Errou na escolha: apostou em quem não tinha lastro, num estado onde Cury era 2,9%. Errou na troca: migrou para um candidato que já tinha os votos que tinha, e não os dele. Errou na entrega: em casa, no município que governou, produziu cinco votos. Cinco. O “Mick Jagger do Sertão” tem coreografia, tem apelido, tem plateia e tem cinco votos de influência.

Mick Jagger, no palco, faz o público se levantar. O ídolo de Monte Horebe fez o público mudar de lado e ir sem ele. O sertão, esse que é combativo com força e não aceita lição de moral de quem nunca contou um voto, decidiu dar a vitória a Lula. Não por acaso, não por acidente: dando 82,13% a quem o padrinho não queria, contra 17,87% a quem ele indicou.

A coreografia foi impecável. A urna não aplaudiu.

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